20 de maio de 2017

Saudade?! Não, obrigada.

Não. Eu não sinto falta do barrigão.
Eu adorei estar grávida, eu nunca me senti tão linda e tão plena, eu nunca pensei que aquela doce espera fosse a espera que iria me mudar e mudar pra sempre a minha vida. Por que ninguém me avisou, Jesus?! 
A minha barriga foi a mais linda de todos os tempos, só eu sei, e só eu me senti e me vi assim, com pintagens e nariz de Peppa Pig e tudo. Eu sei disso, e eu me lembro. Eu vivia exibindo minha barriga em saias longas e cropets, e eu nunca me senti tão linda e exuberante. Mas eu não sinto falta e nem saudade. Porque, apesar de ter mergulhado no planeta gravidez, parto humanizado e maternidade com afinco, afora ter vivido, passo a passo, o mês a mês de te esperar, Marina, eu não fui feliz, não fui só feliz com isso. Eu trabalhei que nem uma louca, e eu esperei o super-marido-papai-amante-homem surgir, e... nada. Tive que viver sozinha as agruras e felicidades de cada ultrassom, daquele sangramento, daquela reunião no grupo de gestantes. Vivi tudo às avessas. Eu sempre me senti um pouco-muito só, mas dessa vez foi foda, e nem tinha chegado à solidão de verdade, por que gravidez é ensaio, é pré-tudo-nada da vida que vem depois, da sobrevida que é deixar de ser o que se foi, o que era, pra ser uma coisa de não-sei-o-quê, de não-sei-de-nada, de não-sei-porra-nenhuma-nessa-merda, de aprender a matar um leão por dia, mas eu tenho que ser, tenho que ter sem ter pra dar nesse caralho. E sozinha, so-zi-nha nessa porra de vida de mãe que é uma merda, e que é fantástica pra caralho ao mesmo tempo. Não, eu não sei como é isso, eu não sei explicar, eu sou uma professora boa, eu sou mestra e quase doutora, com jubilamento e quase tese e tudo, talvez eu seja razoável, mas eu não sei como tudo isso pode ser terrível, e ao mesmo tempo a maior, melhor e mais incrível aventura da minha vida.
Eu amo tudo, eu amo ainda, eu estou amando muito cada sorriso, cada passo e cada palavra. No meu celular tem mais de 2.550 fotos dela, e tem tantos vídeos, e eu não apago nada, nadinha, nem as fotos de careta, nem as de comida, nem as de cocô, nem as de nada. São todas lindas, e minhas e nossas, e eu me lembro de tudo, da primeira fala de “mamãe”, da manga aos cinco meses, do enguiar do bico com mel, dos banhos de sol com choro, das madrugadas de peitcholinha, dos poucos, mas terríveis, momentos de cólica, do não dormir, dos charutinhos e chiados inúteis, da queda da cama aos nove meses, do cabelo caindo, o meu e o seu, do meu corte radical e do loiro-luzes, das unhas curtas, da abstinência de cerveja, dos não-anéis e do não-perfume, do peito sangrando, da infecção urinária, dos exames desnecessários de toque, das retomadas de leve, das pesadas, da vontade de sexo, do não-sexo... tudo grande e tudo muito, meu Deus, o que é isso de tanto tamanho! Poxa, Dindi, por que você não me avisou que ia doer tanto, e que o puerpério era uma desgraça?!
Não, eu não sinto falta. Eu gostei, eu vivi, e eu sofri e chorei tudo, e jamais esquecerei, mas eu não sinto saudade.
Não sinto, não quero sentir e não quero de novo. Quando eu assisti Titanic eu amei, eu sofri, e eu morri junto com todos eles. Eu senti vontade de fazer xixi mil vezes, e eu quis ser a Rose do Jack, a Kate Winslet do Di Caprio, mas eu não consegui assistir ao filme de novo. É um filme de uma viagem só. É emoção de uma via, de uma mão. Como no filme “Gladiador” também. Quem é que consegue ver aquela família linda sendo destroçada, e toda aquela sede de vingança, que acaba sendo bem sucedida, com morte heroica no final, mais de uma vez?! Eu mesmo não. Não mesmo. Me desculpa, Russell Crowe lindo, maravilhoso, delicioso e incrível, mas... não.
Uma vez é muito mergulho pra filmes assim, que nos arrancam o ar e um pouco da nossa alma, e com a gravidez e com Marina foi assim. Viagem de uma barriga só, parto pra uma vez e 28h só, uma quase cesárea e cenário de violência pra um vez só, um pesadelo no pós-parto e amamentação difícil pra uma vez só, icterícia e internação neonatal pra um vez só, dois berços pra um vez só, três slings pra uma vez só, intolerância à lactose pra uma vez só, solidão puerperal de morte pra uma vez só, eu acho que tive baby blues, e eu perdi e ganhei tanto, tanto, mas tudo cabe numa viagem só.
Só uma.
A de ida, porque, na volta, eu tô me procurando, eu voltei a beber, voltei pra terapia, tenho delírios, eu trabalho, tô tentando terminar a minha tese, o dia acaba e eu não consegui escrever porra de nada, sonho com a fauna, nem sei mais fragmentar, sinto saudade de Flávia, Juliana e das minhas músicas, ai de mim se não fosse  Dai. Ninguém consegue sequer ouvir minhas poesias comigo, eu não sei o que é transar, amar, viver, a vida ficou cinza, e eu morri, e tudo ficou na outra vida, renasço e vejo tantos brinquedos coloridos, que, quando ela me olha, me beija e me ama inteira naquele olhar, naquele restinho de peitcholinha, eu morro tudo de novo, e amo tudo de novo, e agradeço a Deus cada lacuna, cada ausência, cada perda de todos os ganhos.
Eu peço perdão, peço que Ele não me leve por agora,  agora não, não me leve a mal, nem por ora, mas me leve já, já, porque não há razão pra se viver muito, só um pouco, só o suficiente pra que ela possa ser e viver. E saber.

Amor eu tenho, muito. E é todo seu, viu, Marina?! Mas, não. Saudade, não. Saudade não tenho não. 

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