24 de setembro de 2017

Filme-sonho

Era um dia de trabalho, e estava tudo diferente. Era escuro e cinza, mas não tinha chuva. Era quase noite, ou talvez quase manhã. Era preciso partir, viajar, então, coloquei o básico na mochila e saí. Bem se via um viço e uma juventude de outro tempo, mas com cara da mesma pessoa: eu. Sozinha, com medo, ansiedade e cheia de sonhos e esperanças. Quando penso nisso, me dou conta do quanto é bom, de como é gostoso viver de aventuras de quando em vez. Coisa de outras vidas.

Pois bem. Tudo começa com os preparativos pra essa viagem, que no começo, era o Rio, e depois, já era um enorme navio transatlântico, cheio de perigos e medos. Mas, pra onde? Pura loucura... É tarde. Preciso correr. Essa mochila não ajuda muito, e não se pode confiar em ninguém, ou quase. Nela, tenho tudo: o mínimo de roupas, biquínis, óculos escuros, água, mel, chocolate e a pasta com os documentos. Eu acho que esse currículo não ficou tão bom, mais pra frente vou ver o que posso fazer com isso. Vou pra um lugar inédito, de um fazer coisas novas de não sei o quê, mas parece que é muito importante. Uma missão e tanto!

- Ei, não olha agora, sobe o muro, vem aqui, corre, rápido! Olha, vê aqueles lances de escada ali? Vai por eles, e, lá em cima, desvia e segue direto até a última porta. Respira um pouco, alinha os cabelos, não dá bandeira. Veste esse colete pra disfarçar, troca de roupa, põe essa saia vermelha que te deixa linda. Me espera, chego logo depois de você. Mas, se perceber que está sendo seguida, nesse mesmo quarto tem uma porta secreta azul. Entra e aperta o botão maior, me espera que chego já.

-Tá bom.

E lá vamos nós. Sigo à risca o plano, na cabeça, vejo e revejo o passo-a-passo, embora não sei aonde vai me levar. A viagem era minha, mas já tinha sido sua. Essa ajuda veio em boa hora! De onde surgiu? Traz a segurança no meio do novo, porque já foi visto e vivido por você. Chego no quarto, nada nem ninguém, até agora. Tudo limpo, perfumado e branco. Em cinco minutos (?) chave, fechadura. E sorrisos, seguidos de suspiros de alívio. Risadas, muitas. Beijos, ah, os beijos. Vem cá, não demora, hum, calma, não tenha pressa. Deita aqui! Que calcinha! Assim eu não aguento! Ai, tá bom assim... esse abraço, me dá sua mão, hum...

[...]

(pausa para imaginar os sussurros indizíveis)

Depois dessa furtiva e deliciosa quase-despedida, é hora de partir. Preciso chegar até o navio, a viagem será longa, poxa, que pena que não podes ir. É, não dessa vez. Você me leva até uma sacada, não se pode confiar em ninguém, tudo de novo. Minha mãe vai se despedir de mim, ela não sabe de você. Penso que ela iria gostar de te ver. O novo me espera ainda. Não olha pra trás, não olha, eles estão de terno, mas não, não confia neles. Essa sua recomendação é muito importante. Por que confio tanto em você? Subo uma mureta que vai dar numa varanda, estamos sozinhos, ninguém nos vê. Pego na sua mão uma última vez, te dou meu último beijo, dou um pulo, preciso te olhar. E lá está o seu sorriso. É isso. Vai dar tudo certo. Obrigada e até!

E depois, o navio, o mar, a viagem pra não sei onde, e a lembrança com gosto de saudade, de um momento, de um lapso que pareceu uma noite doida, uma vida inteira, e que coube toda em um punhado de minutos, de segundos.

Acordo tarde. E sorrio.

[...] 

(Pausa para um segundo de pensamento e de suspiros que não cabem nesse fragmento)


Pronto. Cheguei do sonho-filme. 

20 de maio de 2017

Saudade?! Não, obrigada.

Não. Eu não sinto falta do barrigão.
Eu adorei estar grávida, eu nunca me senti tão linda e tão plena, eu nunca pensei que aquela doce espera fosse a espera que iria me mudar e mudar pra sempre a minha vida. Por que ninguém me avisou, Jesus?! 
A minha barriga foi a mais linda de todos os tempos, só eu sei, e só eu me senti e me vi assim, com pintagens e nariz de Peppa Pig e tudo. Eu sei disso, e eu me lembro. Eu vivia exibindo minha barriga em saias longas e cropets, e eu nunca me senti tão linda e exuberante. Mas eu não sinto falta e nem saudade. Porque, apesar de ter mergulhado no planeta gravidez, parto humanizado e maternidade com afinco, afora ter vivido, passo a passo, o mês a mês de te esperar, Marina, eu não fui feliz, não fui só feliz com isso. Eu trabalhei que nem uma louca, e eu esperei o super-marido-papai-amante-homem surgir, e... nada. Tive que viver sozinha as agruras e felicidades de cada ultrassom, daquele sangramento, daquela reunião no grupo de gestantes. Vivi tudo às avessas. Eu sempre me senti um pouco-muito só, mas dessa vez foi foda, e nem tinha chegado à solidão de verdade, por que gravidez é ensaio, é pré-tudo-nada da vida que vem depois, da sobrevida que é deixar de ser o que se foi, o que era, pra ser uma coisa de não-sei-o-quê, de não-sei-de-nada, de não-sei-porra-nenhuma-nessa-merda, de aprender a matar um leão por dia, mas eu tenho que ser, tenho que ter sem ter pra dar nesse caralho. E sozinha, so-zi-nha nessa porra de vida de mãe que é uma merda, e que é fantástica pra caralho ao mesmo tempo. Não, eu não sei como é isso, eu não sei explicar, eu sou uma professora boa, eu sou mestra e quase doutora, com jubilamento e quase tese e tudo, talvez eu seja razoável, mas eu não sei como tudo isso pode ser terrível, e ao mesmo tempo a maior, melhor e mais incrível aventura da minha vida.
Eu amo tudo, eu amo ainda, eu estou amando muito cada sorriso, cada passo e cada palavra. No meu celular tem mais de 2.550 fotos dela, e tem tantos vídeos, e eu não apago nada, nadinha, nem as fotos de careta, nem as de comida, nem as de cocô, nem as de nada. São todas lindas, e minhas e nossas, e eu me lembro de tudo, da primeira fala de “mamãe”, da manga aos cinco meses, do enguiar do bico com mel, dos banhos de sol com choro, das madrugadas de peitcholinha, dos poucos, mas terríveis, momentos de cólica, do não dormir, dos charutinhos e chiados inúteis, da queda da cama aos nove meses, do cabelo caindo, o meu e o seu, do meu corte radical e do loiro-luzes, das unhas curtas, da abstinência de cerveja, dos não-anéis e do não-perfume, do peito sangrando, da infecção urinária, dos exames desnecessários de toque, das retomadas de leve, das pesadas, da vontade de sexo, do não-sexo... tudo grande e tudo muito, meu Deus, o que é isso de tanto tamanho! Poxa, Dindi, por que você não me avisou que ia doer tanto, e que o puerpério era uma desgraça?!
Não, eu não sinto falta. Eu gostei, eu vivi, e eu sofri e chorei tudo, e jamais esquecerei, mas eu não sinto saudade.
Não sinto, não quero sentir e não quero de novo. Quando eu assisti Titanic eu amei, eu sofri, e eu morri junto com todos eles. Eu senti vontade de fazer xixi mil vezes, e eu quis ser a Rose do Jack, a Kate Winslet do Di Caprio, mas eu não consegui assistir ao filme de novo. É um filme de uma viagem só. É emoção de uma via, de uma mão. Como no filme “Gladiador” também. Quem é que consegue ver aquela família linda sendo destroçada, e toda aquela sede de vingança, que acaba sendo bem sucedida, com morte heroica no final, mais de uma vez?! Eu mesmo não. Não mesmo. Me desculpa, Russell Crowe lindo, maravilhoso, delicioso e incrível, mas... não.
Uma vez é muito mergulho pra filmes assim, que nos arrancam o ar e um pouco da nossa alma, e com a gravidez e com Marina foi assim. Viagem de uma barriga só, parto pra uma vez e 28h só, uma quase cesárea e cenário de violência pra um vez só, um pesadelo no pós-parto e amamentação difícil pra uma vez só, icterícia e internação neonatal pra um vez só, dois berços pra um vez só, três slings pra uma vez só, intolerância à lactose pra uma vez só, solidão puerperal de morte pra uma vez só, eu acho que tive baby blues, e eu perdi e ganhei tanto, tanto, mas tudo cabe numa viagem só.
Só uma.
A de ida, porque, na volta, eu tô me procurando, eu voltei a beber, voltei pra terapia, tenho delírios, eu trabalho, tô tentando terminar a minha tese, o dia acaba e eu não consegui escrever porra de nada, sonho com a fauna, nem sei mais fragmentar, sinto saudade de Flávia, Juliana e das minhas músicas, ai de mim se não fosse  Dai. Ninguém consegue sequer ouvir minhas poesias comigo, eu não sei o que é transar, amar, viver, a vida ficou cinza, e eu morri, e tudo ficou na outra vida, renasço e vejo tantos brinquedos coloridos, que, quando ela me olha, me beija e me ama inteira naquele olhar, naquele restinho de peitcholinha, eu morro tudo de novo, e amo tudo de novo, e agradeço a Deus cada lacuna, cada ausência, cada perda de todos os ganhos.
Eu peço perdão, peço que Ele não me leve por agora,  agora não, não me leve a mal, nem por ora, mas me leve já, já, porque não há razão pra se viver muito, só um pouco, só o suficiente pra que ela possa ser e viver. E saber.

Amor eu tenho, muito. E é todo seu, viu, Marina?! Mas, não. Saudade, não. Saudade não tenho não.