23 de março de 2014

Quando

Consegui voando, dizendo e querendo muito.

Maluquice.

Hoje choro, até corro, mas não vejo onde chegar com essa de você aqui.

Sinto uma febre, algum calafrio de quando em vez, e era comum nos nossos tempos de saudade.

Agora, tudo é esparço, ficou meio roto, parou meio vão.

Talvez seja mais por mim, meu bem,
e eu ainda digo que de amor em amor se consegue fazer, se pode ver o invisível.

Sozinha não é pra tanto.

É outra história, é a fase do deixa seguir, do deixa ficar.
Ir pra onde, se o meu quando ainda está com você?

Eu odeio querer o futuro do pretérito, mesmo sendo o meu verbo mais bonito.

Eu quis um último tudo, um pouco de cada. Ainda não cansei.

Peço em mim, só mais um milhão de vezes
Mais uns duzentos mil beijos
Um punhado bom de afagos
Trezentos mil,
Meus milhares de sorrisos
E só mais uma centena,
aos montes,
desse seu olhar

Eu juro, dessa vez coloco menos açúcar no macarrão
Não erro mais no ponto do suco
Não implico mais com a sua folha de alface
Eu insisto,
pode virar o ventilador.

Apenas te peço um favor
Suspenda essas mil minhas lágrimas
Me deixa esse teu cheiro

Fica!

Chegou mais cedo, amor?
Hum... Vem cá.

Eu te amo.

Boa noite.

Gilda. 22.03.2014.

17 de março de 2014

Frios e sonhos


Alguém há que se sentir melhor nesses tempos chuvosos.
Ou mais feliz.

A tristeza tem dessas. Me faz sentir um nada nessa multidão de mentiras, e nessa de decepções repetidas. Não me encontro, amor! Eu estou desenganada. Mas sigo levando tudo aqui.

Ontem sonhei com você.

Quem me dera, hoje, quem sabe, poder te contar tudo. Ah... eu ia te dizer dos nossos olhares, risadas, algum abraço, aquela nossa música, um último amor, só mais um beijo, suas mãos. só mais um quê de cumplicidade no silêncio, mistério de mais e mais amores. E gosto e vontade dos mergulhos de antes.

Acordei. Perdemos o melhor do sonho.

Nas obviedades, não vejo as nossas verdades. As desculpas são as mesmas, é tudo tão antigo... nem o desamor é novo.

Engano. 

Poderemos achar culpados. Mas como, se estão todos tão certos? Todos algozes, alheios de nós mesmos?A maldade não tem sexo, é plural. E ninguém vê esses mentirosos, falsos e amigos. De quem?!
Cretinos.
Decerto, não mais que eu. 

Ah, mas deve haver um pouco de felicidade por aí.
Eu os vejo tão felizes, às vezes... bem se vê, há que se acreditar nessa corrente de otimismo, ainda que seja de máscara.
Ou de praia.

Vitória! 

Por aqui, tenho a saudade em mim ainda, saudade daquele tempo em que te ouvia sobre as manhas do meu tempo. As idas e vindas do meu corpo. As ondas mais calmas e altas de desejo. Os calores mais amáveis de mim. A nossa última lua. Mais um dia de praia. Um tempero nas nossas rotinas.
Mas isso foi ontem, amor. Você se lembra?
Mesmo assim, ainda sinto frio.

Sua vez.
Passou ou não?
Por favor, perdão.
Agora desentenda.

Gilda Valente. Desde 15.09.2013 até 17.03.2014.

13 de março de 2014

Pressa

Ontem foi de saudade.
Corri.

Toma aqui os noventa,
mas, onde estão os cem?

Preciso de procuras, eu sei.
Preciso de razões.
Não quero os pensares,
não é hora.
É a fome.
Preciso de você.

Toma todo o meu sim,
dor e alma.
Nem tento, nem resisto.
Sou eu que peço.
Mentir pra quê?

De amor em amor
me valho, me encaixo,
nos cabemos um no outro.

Vê!

Estou no agora, eu sei, e você, no ainda.
Tudo bem, abro mão da pressa, desisti.
Te espero, amor.

Vem, deita comigo... me junta!
Tem um tantão de mim aqui.

Meus sorrisos.

E ninguém precisa nos dizer do amanhã,
meu hoje.

Gilda. 14.03.2014. 2h.

10 de março de 2014

Versos inquietos


Estou perdida, amor, em meio às nossas confusões premeditadas.

Do lado de lá, nada sei.
Cá, me vejo, atônita,
dormente, meeira,
sem sim, sem não.

E o que tenho, então?

Angústias douridas, faltar de tudo, saudades oscilantes.
Nada de ar.

Será de raiva, será de amor, ou um pouco de muita dúvida?

Eu não sei mais o que é pra mim, nem o que um dia foi.
Eu juro, olhando de trás, não era aqui que eu queria estar.
Nem era sem você.

Então, por quê?

Pedi um sinal, chamei por Deus, orei a um Norte, qualquer um,
e nada.

Só esse poema, versos fracos, fraquinhos, que mal cabem nas minhas vírgulas.

Preciso de pontos.

Medrosas interrogações,
rumores de exclamações,
um arrogante ponto e vírgula,
um exigente ponto final?

Reticências...

Afinal, o que restou do amor, além do que agora ainda lateja?

É muito.

Busco o tempo.
Nada exato.
Tudo incerto.

De mim, deixo-te
meu grande mar,
Essa insônia,
e minhas incertezas.

Gilda, 10.03.2014

7 de março de 2014

Das loucuras e dos lutos



Estou com sede de verdades. Fome, fome mesmo, eu só tenho das verdades inteiras, dessas de tontear quando é ruim, de cansar as bochechas e tirar o sono, quando boas. Preciso mais das boas, mas, por ora, as ruins também têm sido bem vindas. Mas não me venha, por favor, com verdades pequenas, verdadezinhas, essas pseudoverdades meia-boca. Eu não sou amiga do acaso, do convencional e do meeiro. A intensidade é meio como eu, dói tudo, ama sempre, grita aos cantos mais longínquos o seu sentir. E não me importa se faço birras de criança, se me afogo, ébria, às vezes. É daí que saem as melhores lições, porque é preciso ter alma, muita alma pra aguentar as consequências de se ser livre. E preta. E antissociedade óbvia, hipócrita e suja. É isso mesmo. Não há como ser dada a convenções.
Eu tentei, sabe? Mas essa merda não era pra mim, não era pra ser. Então, liga-se o foda-se bonito, pulam-se as ondinhas da minha maré seca, com direito a afogamento e mudez do celular e tudo. Não fui eu que escolhi, mas, já que é assim, sigamos. Não se sabe muito bem como, nem pra onde, mas é sabido o porquê. Não me venha com essa de foi melhor assim, porque minhas trezentas fases de luto não entendem isso muito bem. Estou vivendo todas, ao mesmo tempo, da pior forma possível: sofrendo. Irracionalizando. Excluindo. Eu quero minhas verdades, não importa! Ainda assim, me dê, me venda, barganhe comigo todas, mas as quero de todo e qualquer jeito. Serão elas, nuas, lisas, rascantes e diretas, a me esbofetear, a me consolar. Conversinhas meio-pau não me interessam. Sai fora! É hora de fragmentar tudo, expurgar, ser espelho e campo de força transparente, pra que se possa se cuidar também na dor, na lágrima, no vazio. A vida não tá nada fácil pra ninguém, e eu nem tenho mais alma pra dar, porque boa parte dela se foi no primeiro luto da minha vida, mais um pouco tem ido com os onze, e o restinho que sobrou dei pro penseiro.
Pronto, Zelina, não me venha me pedir alma, tesão, falta de ar, porque estão em falta, e as que estão disponíveis no mercado não me servem. Também não estou recebendo almas de ninguém. Foram todas pseudofalsas. Guarda, então, suas mentiras só pra ti mesmo, dá pra quem quiser essa porcaria, e eu apenas sigo cuspindo no prato que comi. Lamento mesmo, não era pra ter sido. Quem morre é quem perde a vida, e sua avó, Zé, está muito mais do que certa. E com a sobrevida, se perde o quê, se ganha quanto? Preferindo não dar nem receber nada por uns tempos. Estamos em horas de reclusão, reflexão e pensamentos. Meus sentimentos a mim mesma, diria, se pudesse. Mas não posso, é mais que preciso voar. É imperioso e necessário ter asas, asa delta, biquíni de lacinho, praia, sol e luta de todo dia. Vive-se num mundo capitalista, de carros alheios quebrados e despesas na poha do meu bolso. É um mundo onde não há espaço pra meu mau humor, pra minha cara fechada e pros meus erros.
Ninguém erra, tá todo mundo acertando sempre, e eu sou a escolhida pra alvos de pedras pseudossantas, nem deveria usar essa porcaria de palavras três vezes, ah, não quero saber de beleza por aqui, estou muito puta e digo o que quero. Ah, me deixe, viu? De saco cheio, precisando dar uma brincada com as coisas pra ver se tudo fica mais leve, chegando de leve, mas está tudo muito pesado, não estou conseguindo desligar, tirar o peso. Mas vai sair, não se morre, só se vai um pouco, talvez muito, talvez quase tudo. Mas ainda estou aqui, sambando desvairada em cima da minha sujeira que estava guardada embaixo do meu tapete. Vou queimar esse tapete inútil! Comprei pra me enganar, pra não me deixar ver, não adiantou nada, veio tudo muito mais sujo ainda. Acho bonito... Ficar marcando passo e mostrar que estou correndo, que já foi, que já fui. Ainda sou, está tudo aqui, agora com o pouco mais de peso e fios brancos escondidos nas tintas capilares. Mas tenho dignidade de verdades. As dei, todas, a ti, como nunca antes, e agora sobra essa angústia filha da puta. Tira essa mão daqui, retira sua sombra, e que eu vá a algum lugar. Depois penso pra onde. Agora, nada. Fico aqui, só aqui, vivendo essas fases, todas juntas: negação e isolamento, raiva, barganha, depressão, aceitação, negação de novo, mais um pouco de depressão, pouco isolamento, raiva pra caralho, dúvida, umas pitadas de saudade, um quê de tristeza e bastante, bastante isolamento de novo. Aprendi com Baudelaire que “solidão é estar só no meio da multidão atarefada”, e é dessa verdade que vivo.
Em meio ao mundo, vou me levando, solitaríssima, de superlativo. Loucuras. Essa, a maior Verdade, é o que me resta. E é o que eu quero. Ponto.

Fragmento de pergunta Ou Sobre a quarta-feira de cinzas

Engraçado...

Eu achava que tudo seria diferente, que haveria uma felicidade frenética, após quaisquer dias de muitos carnavais. Tudo deveria ter sido esquecido.

E nada foi pouco!

Foi tanta busca de esperança, de cantigas e cores, e eu vi tantos azuis, tantos quereres...

De todas as brincadeiras, eu me vi em meio a picos de emoções, de sabores e de tantas vontades. Foi tudo lindo! Se viu um frenesi alegre, biquínis prateados, furta-cores, meios peitos de fora, um fio-dental para cada tipo de shorts e pernas. Gentes pelo chão, e, todos dormem, menos eu! Tatuagens à mostra, um quê de otimismo sem fim. Muitos brindes, cervejas para todas as cores e preços, boa música, algum samba, MPB nos táxis e sobras de diversão. E beijos, de todos os tipos, gentes e tamanhos, para todos os gostos e tradições.

Em meio a esses hits novos, sentimentos explícitos, tradições comemorativas e colares de ruas entupidas de branco, das mortes atirando a metralhadoras de brinquedo, a olho nu, não se vê o do lado de dentro, as dores e amores de cada um.

E pra quê mostrar, pra que fingir que a dor é alegre?

Sim, foram passados muitos recibos. E, sim, se pagou um quinhão, mas, então, por que ainda há tanto sabão nesses olhos? Tanta saudade n’alma, todo esse maldito desamor?

Mesmo com toda euforia, com toda lama, risadas e sentires, em cada um havia uma rouquidão, um grito contido. Uma lágrima. Alguma saudade vã.

A minha voz sumiu. Eu não podia, não posso, amor, te dizer de nada disso.
Escondo tudo. E eu estou surda, pois que não consigo ouvir o tanto que queria que viesse de você. De que valeria?

Sabe, Vinícius é que está certo. Haja tristeza para tanto samba! E é da saudade e do amor de onde saem as melhores almas, os mais lindos poemas, as mais eficazes e perenes cicatrizes.

So, let’s live! It’s alright, isn’t it?

Que venham os próximos lepo lepos, quicadas nos calcanhares, esquemas vídeo game, muito você, o amor e eu, muitos cinquenta centavos de sol, de voz, de siris, feijões e marés.

Que todos desatinem de novo, que seja tudo fake, que se acabem as fantasias, que as rotinas dos dias voltem. Mas que os amores e os sambas nunca faltem.

E para os desamores, que não me faltem os Chicos, os Vinícius, as orações, as cervejas, os fragmentos.

Tudo igual. Sem game over.


Gilda, 07.03.2014.