29 de agosto de 2013

BALANÇO


Saudade do tempo em que eu te dizia orações, todos os dias, antes de dormir, ao longe. 

Você não se ia.

Por mais que eu te ame, por mais que eu te deseje e sinta a sua falta, meu amor é outro. Jamais serei a mesma.

Você levou meu melhor tempo, meu maior sonho, meu futuro de planos. Hoje, tudo que tenho é prático, tudo que vejo se conta. Prós e contras. Não caibo mais em balança desigual. O tempo dos amores se foi. 

Caio na real: você jamais será meu de novo. Poxa... mas sonhar você era tão bom! Que vida tenho? De que viveremos? De caminhadas duras e de cinzas. E não se pode lamentar, tampouco há o que agradecer por isso. Apenas foi, passou, perdemos o barco, pegamos um navio. Ou foram aviões, de tão rápidos? Mal vi o caminho, nem sei da viagem!

Se pudesse, recuava, te roubava, descíamos juntos, em pleno voo. Não perdia a sua mão. Nunca tive coragem pra ultraleve, asadelta, paraquedas. Preferia que estivéssemos quebrados. Ainda dói! 

Defeitos irreparáveis, trocas intransferíveis.

Cada um buscou o seu conserto, em construções separadas. Vou capengando, tragam minhas muletas. 

Lembranças de um só, eu sei, meu amor. Já acalmou, tá brando agora. Assoprou tanto que latejou, mas parou. Sarar, não sara. Estanca ou ainda mina?

Desculpa, não soube ser pra ti. E tu, acaso, soube ser pra mim? Não vimos. Nem achamos coisa alguma. 
Se esse amar de hoje encantasse... se contasse... 

Toma! Sou eu, de qualquer tempo, o seu presente!... atribua a cara que quiser, me pinte, desdenhe, e jogue fora, ou guarde pra outro dia. Use um pouco. Bobagem! Embrulho tão mal feito, tsc, tsc... nem camarão, moqueca ou caranguejo ajudariam. Tudo junto. Traz o mar. Eu pago! Inútil... Eu, minha esperança ou a insistência?

Resistência. 

Saudade até da sua ridícula teimosia. Você bem que avisou, mas, de que adiantou ver, se veio junto com um adeus? Demos certo? Cadê o erro? 

Marcando passo? Eu?

Não, não mais.

Só a outra. 

A que sonha. 

Hora de cuidar. Trabalhar. 

Essas coisas de ti ainda me vêm aos borbotões. Vez em quando, serena. Ventanias, sigo as marés. Nem tenho mais luas. 

Em tempos de construção não cabem esses vãos. 

Operação tapa-buraco. Tapa-feridas.

23 de agosto de 2013

DEPOIS

E a lua está tão linda, redonda, imponente, amarelada
E não há nada de diferente nisso.

Nem as unhas.

E há também a noite, como todas as noites, cheia de estrelas
E frias, e minhas.

E há também as nuvens, e as chuvas,
E mesmo quando elas se vão,
Ainda assim, elas sempre estão.

Estarão.

E amanhã, também, haverá o sol,
E há um biquíni novo.

E pode ser que não dê praia,
Não tem problema, mais cedo, mais tarde, dá.

E todo mundo vai ao sol
Não importa quem seja todo mundo
Nem em que ano estamos.

E outros amores serão vistos
E outros casais serão de outros
E haverá sempre uma mesma música
E se verá novos amigos, novas cores,
Novos beijos.

Ainda que não seja o mesmo tempo,
Sempre há de haver rumores
E verões
flores e luas
E tudo há de acontecer ainda.

E tudo permanecerá igual
Tudo continuará acontecendo
E tudo acabará indo
E vindo.

Só tu, não.


Gilda.

24.08.2013.

22 de agosto de 2013

ACHARES


Sabe o que eu acho?

Eu consigo conviver com isso por muito tempo.

Isso de faltar o ar ao ver o seu perfume sutil por entre os meus pés colados, imóveis e ímpares.

Eu consigo sobreviver a dias e dias e vazios de fome sem você.

Essa casa, tão grande, cheia de sombras e vultos, todos seus, a rir e a praguejar um futuro triste e sem paz.

Eu?

Ah, posso acordar no meio da noite, por todas as vidas que acordei sem ti, suando e chorando o medo de não mais ser lembrada em versos que jamais serão meus de novo.

Posso ser, cantar outra música, outra doçura de um prazer inato e sutil, tão inerente a nós, e ao que teremos sido um dia.

Deus sabe, prova cabal e fiel, de que poderei caminhar por mim só, trôpegas pernas, ainda que seja por um motivo frustrante e sem natureza alguma, por tanto e tanto tempo...

Sim, subirei ao altar, ainda que seja um altar triste e sem ti. Mas vou.

Posso me ver entre as nossas paredes, jornais, imagens, sorrisos e rabugentices pirracentas, que, de tão insuportáveis, me fazem chorar a cada ausência patética e  ridícula sua.

Farei de tudo uma incrível relutância, inegável impaciência, lamentável esquecimento; nunca mais mencionarei o seu nome, nem contarei, vergonha, a ninguém, dos meus insistentes sonhos de amores em ti.

Eu posso tudo.

Mas você, ah, você não pode, jamais poderá nada!

Jamais lembrará de mim com tamanha perda, tamanho ardor, todo sentimento, nem verá, sequer, essa saudade.

Saudade?!

Quem sou eu, no meio de toda a sua burrice impossível e inacreditável incapacidade de amar?

Pra você, eu sou um equívoco,
Um desleixo,
Uma mágoa,
Um mau passado.

Passou.

Mas tu, meu caro,
Meu caríssimo idiota
Foi e sempre será um arranhão filho da puta
Um profundo lapso, um saudoso canto de bem querer
Que de tão doído
não cicatriza, não cala, não vai.

Em mim, você sempre será
A minha mais constante
Insistente e repetida
Busca imbecil
e arrogante
pelo amor.

Gilda.

20 de agosto de 2013

UMA CARTA INSENSATA


A todo o tempo, se eu pudesse, escreveria algo. A minha cabeça está o tempo todo pensando num novo fragmento, sobre um monte de temas e assuntos. E em tempos de perdas essa minha vontade de escrevinhar coisas fica mais aguçadinha, e eu só queria que isso desse algum dinheiro, mas não. Serve, e muito, pra dar uma desafogada nos quereres e nas saudades. E só.
Sim, porque são muitos! Alguns doem mais, outros, já nem tanto. E tem os de sempre, os de todo dia. E a minha sensibilidade hoje me aguçou pra umas lembranças boas. Trouxe umas imagens de um tempo que poderia ser trazido de volta se houvesse mágica capaz. Por mim, traz, com menos idade e mais chocolate, e um quê de madrugadas, insônia, sexo e tudo. Foi um tempo de escolhas puras, e de coração entregue como jamais será novamente. Pois é, eu não tenho mais vinte e poucos anos...
Um dia me chamaram de poeta da saudade, e eu não tinha entendido se era elogio ou crítica, mas importa que coube, encaixou, porque eu vivo e morro sentindo falta das coisas, nostalgicamente poetizando a minha melancolia em dias de altos e baixos ou medianos eus. Às vezes não, às vezes não gosto de ser assim, tão olhando pra trás. Cansativo, pesado, viver lamentando o que foi bom, o que se perdeu, o que se deixou de escolher, de ganhar.
Mas hoje é um dia de saudade amena, de perfumes com gosto e cheiro de mar, nascer do sol e fábricas de sonhos. Ontem essa saudade se chamava esperança, mas agora ela apenas é, sabe-se lá o quê.
Sejamos realistas: por mais que se queira, por mais que se ame, por mais lindo que tenha sido, não pode mais ser. Não posso mais pegar essa carona, meu bem, pois que te vejo em outras praias, outras igrejas, outros verões. Nenhuma reza te traria de volta com todo aquele brilho, todo aquele café passadinho, a qualquer hora, com leite e muito açúcar que você tanto gosta, e nem que eu preparasse mil vezes o seu prato preferido, ainda que fosse em dia de festa, você seria meu de novo. Não, não daquele jeito. De um jeitinho todo meu, que ainda coubesse em nós uma expectativa velada de futuro, de um amanhã inteiro, inteirinho de sorrisos e felicidades.
Algumas amizades já são novas, mas não te viram, e jamais terão a dimensão do que fomos. E da grande besteira que fizemos em não morarmos ainda um no outro, de caminhos partilhados, de músicas divididas e completudes inexplicáveis. E nem adianta perguntar tanto, voltar e ver se conseguimos achar a peça que falta, porque a conexão agora é outra. It's over. Em mim, tento um pouco não sofrer, porque o tempo até ameniza, mas não apaga nada, e nem tira coisa alguma do lugar. Só acalma e serena, e fica um doídozinho em vontades de te dar um pouquinho de rotina, inútil e indelevelmente impossível de ser na afobação de um telefonema.
Ontem a praia poderia até dizer, se pudesse, da falta que o meu domingo sentiu de ti, e de quase tê-lo visto entre aquelas pedras, aquela manhã, aquele sol. Aquele beijo era tão nosso, que eu guardei ele em mim, e juro que quase posso senti-lo em dias de felicidade. Mas não, agora são de outro tempo, outras saudades, outras vidas. É triste te ver em outras histórias, e isso até me levou a fome de pizza caseira, veja só: eu não tenho mais apetites noturnos quando vejo essas fotos, esses lugares, esse batom. Não está na minha boca, não está na minha estrada, e Siribinha nunca foi tão longe e ao mesmo tempo tão linda. Eu não combino mais com essas coisas, e não sei se combino ainda com você, mesmo que eu super me esforce, super acredite que o perdão e o amor poderiam me dar a ti, e você a mim, de novo. Pra sempre, talvez? Cadê o eterno em vidas separadas?
 Ilógica essa minha saudade, sem nexo esse meu querer bem... essa minha insistência, teimosia adolescente, veja que loucura, pensar que seremos um caminhar de novo. Pode até ser bonito, pode até virar poesia, mas, real, não é. E eu só não te convido pra mais uma dança porque de orgulho e de vergonha se constrói um pingo de dignidade.
Veja bem: não é por falta de coragem, é apenas por falta de espaço, e por ver na obviedade que a sua dança segue noutro ritmo, noutra batida, noutro samba. Eu sei que vou ficar por aqui ainda com a minha intolerância musical, e com as mesmas letras, as mesmas músicas. Eu gosto de saber que, embora hoje sejam só minhas, tudo isso já foi meu e seu um dia, e tudo isso me faz rir, me faz pensar numa nova poesia, num novo sono, no desejo de uma nova corujice madrigal. E esse trocadilho não tem nada de farra, não tem nada de profano, não tem nada de insensatez, não tem nada de mal feito. E você não precisa pedir perdão, não por isso.
Aliás, insensato é o meu coração, que quando deseja um alguém pra ser perene, só bate assim por você. Um bem e mal tão doce, tão gostoso mas tão tolo, que ainda me machuca um pouco, mas volta e meia me dá um tantinho de juventude, de fé e coragem pra ver o amor além, o amor a dois, o amor ao sol, mesmo estando frio, e a previsão do tempo aponte pra frentes e fundos de chuvas e baixas temperaturas.
É uma pena, sabe? É tudo muito seu, e vai ficar por aqui. Vou cuidando, vou guardando. Quem sabe um dia tudo isso não se ache, se encaixe de uma outra maneira?
É mais que um dois alto, não é uma brincadeira.
É apenas um desconcerto de mim, que não sei o que fazer com isso de te amar ainda.

Gilda.
20.08.2013.

15 de agosto de 2013

O SONHO, O AMOR


Hoje eu te vi num sonho.
Não foi nada comum. Foi um sonho do passado. Eu estava no seu passado, mas eu era dos tempos de hoje. E eu sabia. Mas, por algum motivo, por alguma graça, me foi concedido voltar. E te ver.
Eram outros séculos. Outra casa, outra vida, outras pessoas. Que tempo era aquele? Em algum momento, pensei ser o século XVII ou XVIII, porque me vi com vontade de vestir aqueles vestidos pomposos, cheios de espartilhos e meias. Eu me preocupava com isso, porque ninguém podia desconfiar do meu tempo. Queria estar inserida, pra que, principalmente você, não percebesse que havia algo errado. Mas você ainda não tinha surgido.
Me vi numa casa grande, antiga, colonial. Era uma casa boa, tinha muitos cômodos, muitos vãos, criados. Não era a Bahia, era o Rio de Janeiro. Você morava nessa casa, com seus pais. Havia muitos amigos que frequentavam esse ambiente. E era também perto da praia, como se fosse o centro da cidade. Tudo muito antigo, um Rio que eu não conhecia. Tudo era muito diferente do que é hoje, e eu ficava tentando ver semelhanças. Eu via algumas, porque me sentia familiar com tudo. Eu já estive ali, tanto no meu hoje, como no seu ontem. Estou muito certa disso.
Aí, você apareceu. Sabia que eu não era dali. Antes, uma espécie de hóspede, e precisava ser bem recebida. Havia outra mulher comigo, parecia ser minha mãe. Não sei... Éramos muito jovens, eu, mais do que sou hoje, talvez na casa dos 20. Você também. Foi um encanto te ver. Muito solícito, muito educado, logo percebeu a minha preocupação e o meu constrangimento com as roupas, com a vestimenta, e veio me ajudar, oferecer trajes. Qualquer coisa que servisse até irmos a alguma loja providenciar algo melhor.
Vi os rapazes entrando, à tardinha, e você dizendo que hoje não podia sair, que ia ficar comigo, me dar atenção. Vocês vestiam roupas pomposas! Pareciam ter saído dos livros de Machado de Assis. E, a partir daquele momento, suas tardes, seus lazeres, seriam todos meus, tudo seria muito pra nós. Isso foi tão doce!... de onde eu te conheço, afinal? Por que estar ali?
E fomos circulando pela cidade, você a me mostrar construções, ruínas, o surgimento das favelas, a praia. E, de repente, já era o século XX, lembro-me de comentar com alguém que eram os anos 40. 1941, na verdade. As roupas já não precisavam ser tão rígidas. Eu podia usar saias! Ou um jeans! Que alívio, um jeans, nesse calor do Rio!...
Em um desses passeios, eu já me percebi apaixonada. Eu não sabia nada de você, só sabia que não queria ir, eu não podia ir, não depois disso. Eu era uma visitante, tinha que contar o que vi, quando voltasse pro hoje, não sei pra quem, nem sei por que; mas tinha que falar da realidade social, das mudanças na história, das favelas, dos negros, e de tudo o mais. O Candeeiro ia gostar de ver isso, pensei. Mas agora eu não queria mais voltar, eu só queria um pouco mais da sua companhia, dos nossos passeios, da sua corte. Um pouco mais do Jardim Botânico, de Copacabana, da Lapa, e do que mais pudesses me mostrar, porque conhecias tudo, e bem se via que sentia orgulho de me ensinar, de estar comigo. Como pretexto, como desculpa, só pra não nos afastarmos mais, nunca mais.
Passaram-se meses em alguns minutos de sonho. E nós muito juntos, repletos de carinho e cumplicidade, renúncia e amor. Não houve um beijo, não houve sequer um pedido, nem sexo, nem nada, e ali estávamos, diante de tudo. Vivendo tudo. Você era meu. E eu, só sua. Na última tarde, que eu não sabia que seria a última, estava a contemplar o mar, de lado, como se estivesse num passeio alto, a olhar pro longe, vendo a outra ponta de praia. Mas eu olhava o morro, dali, e dava pra ver um amontoado de casas se formando desordenadamente, e eu pensando em todo o povo pobre que vivia ali. Tive pena deles, mas estava feliz de poder voltar e ver como tudo foi se formando. Ocupações irregulares, espaços da praia invadidos, pessoas pedindo esmolas. 
Aí, você chegou. “Está preparada para Búzios esta tarde?” como assim, Búzios? Como sabia que precisava conhecer Búzios? Você sabia de tudo. Apenas me sentia. Isso é que era o mais lindo. Do copo d’água ao tipo de roupa; da vergonha que senti dos seus amigos, e da sua acolhida a mim e renúncia a eles; dos lugares e perguntas mais íntimas, você sabia o que eu precisava saber, sem que eu nem precisasse pensar. Era tanto cuidado, tanto amor, tanta entrega, que eu não sei se viverei pra sentir isso um dia.
Eu nem sei se nos encontraremos um dia. Se nos encontramos de fato. De que vida você é, meu Deus? Onde você está? Você existe ou é apenas uma vontade de alguém assim? Como saber... O moderno e o antigo entram em confronto em mim, e, por um instante, penso que você foi só desejo. Meu sonho. Mas não. Eu sei o que vi, o que senti, o que vivi. Você está em algum lugar, mas eu não o reconheço nessa vida. Tudo bem, em alguma outra, quem sabe, nos veremos de novo. E que esse novo seja breve, ainda que seja em mais um sonho, no meu amor, para que eu possa amenizar esse desejo, e possa, ao menos, compartilhar um pouco do seu sorriso, do seu pensar, do seu trato, de tudo o que me deu em um tempo tão longínquo, mas tão meu, que, de tão real, me faz te querer no agora, no sempre, na perenidade e na leveza da companhia certa e eterna.
Acordo rindo. Que sede! Foi por isso que eu não vi Búzios, foi por isso que eu voltei, morrendo de saudade, e pensando na vontade de voltar, de nunca ter saído de perto de você. Só de pensar em suas mãos me levando pelas ruas, pelos vãos, pelos lugares tão conhecidos, que eu fingia não conhecer pra te deixar me ensinar um pouco mais, fico com mais saudade ainda. Durmo de novo, você não vem. Nada. Sonho com o mar, travessia, eu nadando, só. Outra coisa, outro tempo. Droga. Cadê você...
O meu dia tem agora outro gosto, outra cor. E eu nem sei se consigo desdizer aqui o que esse sonho com você, de fato, me deu. Se aqui há um pouquinho de te guardar, de nos suspender no tempo das coisas vividas, nas minúcias do amor, nos sorrisos da esperança, é pra não te deixar ir. E quando quase passar, te leio um pouco, e te guardo uma vez mais, te salvo em mim. Não te deixo, não vou me deixar esquecer desse tanto de nós no depois, do seu tudo em mim, ainda que te queira imenso no hoje.
Mas, meu amor, não tenhamos pressa. Não nos nomeamos, mas nos reconhecemos. Saberemos, então. Somos um do outro, o outro do um. Nos encontraremos, eu preciso disso. Preciso sentir a plenitude desse amor de novo. Não importa onde acontecerá, não importa o quando. Só importa que não haverá um se. Apenas haveremos.
Ah!... sinto os meus suspiros de risos e saudade, e a constatação de que, sim, eu ainda quero o amor.

Gilda.
15/08/2013.

12 de agosto de 2013

VISITA

Uma borboleta, no meu quarto,
a essa hora?

Bem se vê. Está mais insone do que eu.

Mas por que, se tens o seu céu?
Se tens o voo das luas pequenas?

As pessoas sofrem. Eu morro.
Um dia a mais, uma dor a menos.

Está tudo bagunçado:
há um quê de fora de lugar,
minha cara
Estás longe das asas diurnas!

Temos o mesmo desencontro
De mãos e patas de apertos vãos

Tenho fome de manhãs lisas
E de madrugadas melhores

E tu? O que é de comida?
Acaso me trazes algo
Ou tenho eu que repartir o pão que não tenho
E a água que perdi?

De azuis e furta-cores também se constrói uma casa triste.

Se sobrevivermos a hoje, será um milagre.


Gilda.

6 de agosto de 2013

O MURO

Putaria de vida, isso de merdas e escolhas. Sabe, esse andar em círculos já me encheu, já deu. Não quero mais me sentir assim, meeira, meio lá, meio cá. Não vê que não estou em lugar algum?! Já é hora! Anda! Hora de cortar, radicalizar, parar de cair, de recair.

Senão... não passa. Volta. E hoje eu me vejo nessa angústia voraz, com medo e tudo, sem luz e nada, minha respiração mal sai. Peço o ponto.

Eu fico na próxima rua, naquela esquina, diante do meu muro labiríntico, anedótico, dual, cinza. Estará roto? Apois. Nessas horas, as cores se esvaem.

Hora de que, doutora? Dia de monte, mês de anos, minuto de lágrima. Suspende! Engole! Já é hora!
O murro nem dói, nem sei se bati de novo. Eu nem caí! Eu andei? Por onde fui dessa vez?! Que lugar é esse?

Acordo. Me vejo, sou um se, de frente, olhando pro alto. Dou um pulo, trepadeiro, busco uma nova sacada. A próxima vai longe... há de vir, antes, a droga de cura.

Doído, sem sabotagem, cheio de necessidade e ânsia; assim, evita-se o senão de errar de novo. Quero tudo: missa de um, dois, três, sétimo dia. Um mês, um aniversário, uma novela, aquele seriado. Se precisar, queimo as toalhas, dou nadas, pego de volta os sonhos, e tudo o mais.

Quem diria que essa merda conseguiria colar, perdeu. Eu poderia ver melhor no agora. Mas não. Vejo o muro de novo.

Não há dias para românticas e otimistas. É tempo de olhar sem voos. Nem sei: queres um velho erro ou uma nova perda? Um amor de recalque ou um affair de verão? Uma nova bebida ou mais uma moldura?

As pessoas e pessoas são todas marginais. Desleais. Só querem saber das máscaras. Mas, do que me queixo? Eu as dei! São minhas, então? Não... elas tomaram partido. 

Só eu continuei olhando, perdendo o viço. O que há além? Quantos lados? Esse X não se encaixa, nem tente. Vê? Só peso, só cansar, só penar. It's too much!

Não sei ser um, nem sei ser o outro: que é de profundidade, dedicação, renúncia? Quem disse que pode essa música, esse calor, esse licor? Não se pode nada. Se deve tudo. É o tempo. E, mais ainda: saiam com essas de inteligência, independentes, maturidade, feminismo, boemia... Não dá. Não dá. Há um mau proveito; há quem dê, mas não há quem mereça!

Esse muro, dividindo tudo. Nenhuma de nós agradou, não é? Nem a que era, nem a que deveria ser. No final, elas estavam em cima. Não se pode estar lá e aqui, ou cá e ali. É preciso provar que se sabe decidir. Prova de amor é renúncia, não é? Aceitar como se é não prova nada, porque ninguém dá. Nunca uma água custou tanto, meu Deus! Sou eu que pago. Me diz: quanto é? Tudo isso?? Tão caro... Eu que dou, eu que exijo, ou você que dá, que recebe?

Afinal, sou anormal, marginal, ou perdi o tempo de “encontrar pessoas"?

Vou pensando. Vai passando... Senta aqui comigo, vê a vista, olha pr’aquele lado! Há uma família ali! João, Maria, e missas aos domingos. Não? Ah... mas daquele lado podes ver aquela moça... tão autônoma, tão livre, e sua, em si! É sábado! Tem viola! Fragmentos! Mas... coitada, não serve pra ninguém. Ninguém a serve. Não se vai feliz também.

Vejo tudo, daqui, mas não escolho nada. Sofro às vezes: não tenho, e não posso ser. Jamais conseguirei seguir pra outro ou pra um. Pra todos os lados, dói. Todos os dias.


Gilda.