12 de março de 2013

A noite

E eu sigo, por mais uma noite, uma madrugada a mais, sem conseguir dormir. São inumeráveis muriçocas, incontáveis calores, incompreensíveis angústias. Insustentáveis saudades.

Como poderei eu, num dia comum, num dia de repetições, modelos e lutas, não me ver um zumbi? É fato. Haverá um soluço no meio, pois que, quando não se contam os sonhos, faltam as poses, esvaem-se os risos, fica o cansaço. E já faz tempo, há tanto venho e vou assim, tentando, de repelente, trazer novos jeitos, frescas noites, ombros de acolher, luas de guardar. 

Nada.

Continuo alérgica a mosquitos, mas não os odeio. Eles estão nos seus lugares, o meu movimento é que é alheio. Minha saudade é abstrata, meu medo é pluriexistencial. Mais de um, entulham-se, neblinas após neblinas quentes. Suores de intensidades várias, de espessuras adulteradas.

Na honra de hora magnetizada e nostálgica, preciso acordar.

De onde, se já nem tento? Por que, se não consigo? Devo pensar num acordo, isso de alumiares de sol hão de me enlouquecer.

Acaso verei noite onde houver trânsito, semáforos e malabarismos? Não sei.

Devaneei um pouco, uns pruridos insistentes me chateiam o tempo todo. Que coçar abusado, que irritância ímpar! Quero noites de pares, estou precisada de sossego, mas não, ave, que eu não aguento esses zumbidos! Crash, crash, crash, de unha e pele, nos engalfinhamos.

De insônia e cochilos, sigo na trajetória madrigal. Me assopra, não roda, olha a luz! Onde a água? Banheiros, infinitas vezes de descargas sonolentas. Despertei, pronto. Sento na cama, bocejo, esperneio. Quero dormir! 

Nada.

Amanhecendo... vou caindo, pesar de olhos, sorriso leve, penso no amor, esqueço do sofrer.

Mas qual: já é hora! É tarde! Pula, lava, seca, veste, calça, engole, separa, pega, dirige, sai.

Corre!!!

Bom dia o caralho! Aaaaaaaaaaaah, cadê meu lençol, jesus?! snif, snif...
Não posso fazer bico. Não tenho humanidades. Não peça quereres.

De café em café, de sorriso em sorriso, de cochilo e aulas também se faz uma mulher labuta.

Puta.

10 de março de 2013

Oficina




O meu desconcerto não se vê no mapa, não se pode descrever, escrever, ler. O meu conflito e a minha confusão são meus, mas estavam ali, está tudo aqui. Eu estava inteira.
Pude ver cada cor, cada gota, todo o suor do meu desbancado olhar ao te ver.
Ah, você...
E eu quis te dizer de tudo isso, do nada que nos separa, do ontem de tão perto, dos indizíveis tão distantes! E eu que sempre fui tão sua, que sempre soube o que dizer, só queria saber um pouco mais da sua rotina, ouvir muito sobre banalidades do dia-a-dia, trivialidades que só os ouvidos saberiam entender o porquê de soarem tão bem.
Nesse hoje, há toda uma conspiração em mim. Mãos que não se controlam, mente e coração em conflito. A hora é de recuo, ponderações, voltas, idas de vidas alheias e distantes. Educação, riso polido, bons modos. Aprendi a ser boa nisso, às vezes. Mas não com você. Não agora.
De saudade e de expectativas também se planejam os futuros, também se sonham os dias, também se especulam os amanhãs, sabia? E eu nunca pensei que fosse te achar tão bonito, tão obviamente jovial, tão espontaneamente deslumbrável aos meus olhos! Acho que deslumbrada estava eu, diante da minha inutilidade patética de emoções, meu amor transbordando a cada bebida, colher, café, água e suspiros.
 Engraçado...  esse desconcertar é cheio de defeitos, cheio de falas, de falhas, mas não se pode consertar, trocar as peças, mudar de lugar, retocar a maquiagem, enxugar as lágrimas, estancar o riso de canto. Apenas é, apenas cabe no nosso contexto.
Que texto caberia?! Acho que, apesar dessa oficina não poder nos ajudar, e dessa música ter me vindo à tona tão rápido, você, que sempre será meu bem, é todo o meu mal, pois me vou afogada, estou náufraga, tudo que sou se esvai em ti.  
E é isso. Todos veem, absurdo e ridículo qualquer disfarce, desnecessário inventar qualquer máscara, incabível qualquer desculpa.
Não nego, então. Do amor, ainda há. No sempre, com todo amor, sigo em mim. Como num filme, como nos meus fragmentos, toda nos meus sonhos, me vou. E em tudo que é meu, tudo o que sou, transbordo em ti.
Te desejo um bom sonho, uma boa vida, uma boa rotina, cheia de novidades felizes.
Te desejo um futuro de encontros e desencontros e de consertos e desconcertos comigo.
Como vai? Até um dia, então. Até talvez, quem sabe?
Eu? Não sei de nada...
Gilda, 11/03/13.

7 de março de 2013

Relato de ausência

Amanha é meu aniversário, e eu já sobrevivi a mais um natal, a mais um ano novo. Eu não queria ter que sobreviver, melhor seria viver esse dia com você.

Se eu sentisse o mar, se, ao menos, me fosse concedido mais um pedido, te pediria. Te perdoaria.

Acaso alguém poderá me perdoar?

Amor demais, vou indo. É preciso voar, respirar com o que se tem.

E eu dou água, se é só isso, por ora, o que tenho. Nem falo mais de saudade. Essa já mora em mim há tanto, já é minha hóspede. Às vezes amiga, às vezes cretina, agora, nada, mas está aqui.

Deixo, antes isso que o desamor, que o desatino, que a sobrevida de não mais haver sonho. Que venha a alma, salvei um pouquinho pra você.

Não tenha pressa, apenas venha, com perfume e olhos, beijos de insônia, conversas de dois. Vida de um.

E amor que nunca se acaba.

Gilda.