22 de fevereiro de 2013

Limpeza, ou um fragmento para a Saudade


 
Preciso de uma faxina na vida, nos dias, no dia-a-dia.

Não há como partir para parte alguma, lugar algum, então, é preciso limpar tudo. Das coisas que ficaram, me sinto leve, às vezes. Ainda assim, justo agora, tenho que esvaziar os vãos, as cômodas, os lustres.

Preciso me desfazer das cortinas, das toalhas, das lembranças.

Por que a dor, se não sou Valente, se nem era verdade, se não era pra ser? Deixa estar, quando for de tirar o peso, o resto, me levo sem suor, sem apego, sem rancor.

Espero sim, minha amiga, mais de mim, aí, sim, futuros de poesia e par, sonhos de maré de novo. Por enquanto, vou indo de limpeza, tirando tralhas de sujeiras alheias. Nada disso é meu.

Espero, livre, por ti, Saudade, isso de falta dele não é viver. Não se deve insistir, um dia ele volta, ele chega, e tudo terá um sentido de antes, do novo, do viço. Porque de saudades sem mágoas vem a pureza, a fé, o pensar num porvir de amores.

Vou deixar tudo um brinco, quero que se orgulhes de mim, das páginas lançadas, dos brinquedos queimados, dos pesadelos levados. Mas não agora. Preciso de baldes, pano de chão, vassoura. Há que se lavar bem e fundo, não se pode deixar nada por fazer. Está tudo tão aberto, não está? E, sujo, não fecha, não acaba, não se vai.

Ter que se ir nem sempre é bom no hoje, mas no depois tudo se explica, tudo se refaz, tudo se arruma.

A mim, que não estou fazendo nada, não me custa dar uma ajudinha...

Thais, 22.02.2013.

21 de fevereiro de 2013

Um indo de solitude




Pois é
no hoje, num dia de baixa
entre direções, noites de volantes,
segredos,
tentei, bem sei eu, e me mantive longe
evitar é sempre bom
mas não quer dizer bem

Falei frases irreais, contextos de mentira
acaso sou um lixo atômico
atônito?!
De onde, então, esses buracos
velhos,
Esses fundos
Aqueles medos?

Fé,  crença, dança
isso nunca foi pra mim

Em noites altas
Sou das  frustrações abobadas
de tentativas vis
sou de loucuras etílicas
dos jeitos  virotescos
das amizades juvenis

Não há quem suporte
só há quem se importe
lamente
de mim, as coisas ruins

Me estranho, em horas de fendas cálidas
dias de mentirosas, as ilusões

Por que a crença no tempo,
nas luas,
nos minutos?
Olho, cadê que me enxergo?

Nada.

Cansei, não tenho como terminar
Preciso me jogar fora
Ainda restaram pedaços,
Tenho que catar-me, desiludida.

É por aqui.

Gilda, 21.02.2013.

Queda livre




Fragmentação... É nisso que dá alimentar-se de saudades virtuais que, de tão reais, ainda me estremecem e suspendem a minha respiração. 

Ah, francamente! Não eras tu que já apregoava e bradava rios de racionalidade e lucidez? De onde vem, então, todo esse ferver de pensamentos, sonhos e ideias de antes? De agora? De nunca esquecer?

É muita saudade. 

Dessas que me faz ver placas e contar números em zeros de provas em vão.

Que me trazem, em sonhos, angústias e apertos que, no cotidiano, nem parecem doer.

Adormecer até que é bom. Dimensão plural, atemporal; lá, posso sentir-me sua, sentir-me amante, viver de amor. 

Querer aquela conversa que nunca aconteceria aqui. 

Fazia um tempo bom enquanto pensava nos verbos futuros do pretérito. O nosso tempo tem esse nome agora. Está onde sempre quis, não onde eu quis. 

Pré-rotinas, relatos.

 Inglês, francês, gestão, docência.

I’m training and practicing my disabilities how to forget you.

Treinando a minha incapacidade de pular.

É inútil. 

Não tenho mais paraquedas. 

Gilda, 26.08.2011

16 de fevereiro de 2013

Sobre mim e Gilda



Ser Gilda, senhora, digna, ora, pra quê?

Ficar engolindo esses relâmpagos, essas farpas de ferro, essa rotina tão ruim?!
Cansada de pernas firmes que mal se aguentam em pé.
Não passo de uma mentira, uma ilusão, um sopro de poesia. Nem fingir sei.

Que se vão os bailes, todos, porque eu não sei dançar cordas e liras de felicidade. A diferença está no não-sonho. No não-sono.

Veja bem: pesadelo é outra coisa, mas é preciso receio dos olhos fechados. E o medo é esperança de sonhos bons.

O que eu sinto só vejo quando abertos os olhos, aberto o peito, abertas as chagas. Velhas, novas, pueris. Tudo dói.

Não vejo porque ser Gilda. Gilda é saudade transbordante, olhar pequeno, brilho de madrugadas matinais. Sofria, bem se sabe, mas sonhava. Seu coração acredita no amor do ainda.

O meu, no ainda das mágoas. Não me olhe agora.

De olhos abertos, nada de amores tenho a dizer. 

Choro, às vezes.
De tristeza também se canta um amor indigno, insano e infame.

Amém.

Thais, jan 2013.

15 de fevereiro de 2013

Tempestade



Ah de ser,
De  se fazer feliz
Algum dia

Sem chuva
Sem trovoada
E com muita estrela
Raio, corisco e trovão

Nada de nuvens de penumbras
Banais
Nem de chuviscos,
meros momentos
Desiguais

Há de vir uma torrente
Um lamento
E uma saudade
Fortes

Um amor desvairante,
desvairado
impacientemente viril

Mas não me venha agora
Com guarda-chuvas
Nem botas
ou capas
É hora de se molhar
Que venham as nuvens.

Gilda Valente, 16.02.2013