19 de fevereiro de 2011

VONTADE

Estava a pensar, a lembrar daquela mensagem de hoje à tarde. Alguma coisa na televisão sobre Siribinha, você me avisa. Pra quê? Já faz tempo que não nos vemos. Pra você, um mês. Pra mim, centenas, infinitas noites, intermináveis dias à espera de presenças suas.

Enquanto tento entender os porquês que não têm resposta, e ainda decidindo qual o meu estado de espírito pós-sms, você me liga.

– Oi! E aí?

– E aí?! Como assim, “e aí”?! Olhe, seu filho da puta,... vá tomar no cu e não me ligue nunca mais. Eu te odeio tanto por ter sumido esse tempo todo, por quase me enlouquecer de saudade e sem notícias... Como é que você me vem cumprimentar como se nada tivesse acontecido?! Como se fôssemos “coleguinhas”? Acaso ficou maluco? Eu não quero a sua amizade, eu não quero a sua compaixão, eu não quero o seu telefonema espaçado! Vá pra casa do caralho, que é o seu lugar...

– Ah, você tá pensando o quê?! Eu aqui, entre os seus, fotos e cheiros espalhados por todo canto, esse povo a olhar e a perguntar sem nada dizer, esse seu fantasma a me acompanhar, um mundo a me torturar, e você, simplesmente, depois de todo esse tempo, me “liga”? Não, meu caro, eu não posso com isso. Cadê a nossa conversa? Onde estão os nossos erros e acertos? Onde você está que não vê as minhas grossas lágrimas caírem todos os dias de manhã, antes de dormir? E ao acordar?

– Porque não respondeu as milhares, centenas de mensagens, queixas, despedidas, decisões que te escrevi toda noite, sem te enviar, inúteis que são? Não. Você não tem esse direito.

– Exerça, sim, o direito de estar aqui, comigo. Eu preciso de você, não aguento, não consigo!... me salve! Não suma assim... eu não sei ser sem você...

Era o que eu queria ter dito. Mas nada disso saiu da minha boca. Fiquei, respiração suspensa, fingindo uma frieza natural, que de tão artífice gritava o meu amor, a minha mágoa e a minha saudade por todos os lados. Talvez eu tenha me saído bem, embora tenha enfatizado umas duas, três vezes, irônica e cinicamente, o grande “milagre” da sua ligação. Sou uma covarde. E você, um grande cretino.

A nossa conversa não existiu. Não dissemos o que queríamos, não ouvi o que queria, não tive você aqui. Trivialidades e notícias do cotidiano não me interessam; a ti, tampouco, a minha vida lhe traz alguma informação relevante. Mas, ficamos assim, por alguns minutos, a aprofundar o vazio, a aumentar a distância, a afastar inutilmente o amor latente e a saudade reclamante. Os assuntos nem têm mais validade. Se esse telefonema acontecesse na semana passada, saberíamos coisas em comum, estaríamos mais perto, poderíamos nos ver. Se fosse há duas semanas, quem sabe não combinaríamos um tempo juntos em lugar nenhum? Se fosse ontem, talvez planejássemos o novo carnaval com gosto de lua de mel numa praia deserta, qualquer uma, nada importa. Ou numa cidadezinha antiga, com a família. Gosto nosso...

– Oi! Você tá me ouvindo?

– Sim, claro...

– E esse silêncio? Parece que não tem ninguém...

– Mas eu estou aqui. Continue.

E você continuou. A vomitar novidades, a alfinetar ciúmes leves de uma viagem que não sei se vou. Eu mal consigo me olhar, quiçá sair de mim... parece até engraçado te ver testar a minha audição. Eu ouço bem a sua falta, gritante, nos meus planos. Os outros sentidos vão indo também. Enxergo ainda você seguindo o seu caminho, a sua vida, longe dos meus afagos. Nas minhas mãos, sinto contumaz as milhas e milhas da sua pele em outras paragens. Respiro fundo, e minha lembrança olfativa me mostra que o seu perfume já não divide os nossos ares. E na minha língua, não há o deslizar da sua boca, seus pelos, seus olhos, seu eu em mim. Está tudo funcionando, piloto automático, funções vitais. Mas, cadê a alma, se não durmo?

– Só liguei pra dizer “oi”.

– “Oi”, pra você também. Fica com Deus.

– Beijo.

Desligo o telefone, e nem sei como conseguimos conversar tanto de nada. Olho em volta, e não me vejo. Respiro fundo. Nasce a palavra, que nada entende. Mas registra o agitar desta mente e desse coração nus.

Hoje tinha ainda tanto a dizer, nada a declarar, que eu nem me esforcei pra te colocar a par das boas novas. Só tenho notícias passadas. A velha novidade é a minha grande rotina.

A mágoa, renovada a cada ausência sua, é a minha companheira. E o amor, morto-vivo, nasce e morre, noite e dia, dia-noite, entre os afazeres urgentes e a saudade teimosa, descarada, miserável. Essazinha aí vive a rir e a chorar da minha insistência, da minha relutante teimosia em não te deixar passar.

Eu, meu caro, não passo sem você.

17 de fevereiro de 2011

NOSSOS

Da moradia da saudade

Meu passado
repousava sagrado
Mas eu o encontrei

Surgiram lembranças decoradas
do dia que nos vimos pela primeira vez

Mas me descobri
homem sem face
sem corpo
sem gosto

E o passado sangrou
E me pôs face a face com meus erros
Meus acertos
Minhas mágoas
E minhas felicidades vãs

Quem há de dizer que não fui boa?
Quem poderá pensar que não foi bom?
Ainda que não tenha havido orgasmos múltiplos
Algum prazer há de ter sido
Valido
Válido

Era pra ser um mero fragmento
não correspondido

Nunca quis esquecer
aquela rua, aquela casa
aquele amor

Tudo é uma questão de templo
embora algumas lembranças nunca sumam

(...)

Daria pra fazer um mosaico
Desses bem coloridos,
Da nossa história?
Um dia desses vi um filme
Tive um sonho
Não via o seu rosto, nem as suas cores
Mas era você
A me beijar
E a me dizer mentiras sutis
Poderei eu te ver pelos vidrilhos embaciados?


Amantes como nós
São mais comuns
Do que teclados quebrados
Jogados no lixo.
Mais comuns do que marketing de nicho,
E, mais ainda, do que sensações de vazio.

Por isso sonhei assim:
Nós, no arrepio de um cachimbo de água pura,
Morrendo de rir diante da vida dura,
Apreciando velhos poetas,
Lá de cima de uma fresta
Incrustada numa
Montanha de sonhos estranhos.

Sonhei com minha poesia virada prosa,
E contigo sorrindo em covas largas,
Como se finalmente entendesse -de fato- tudo...
Me vi clarividente, surdo e mudo,
Assim gritei bem alto
O quanto pudesse eu mesmo ouvir.
Sim moça, tenho que admitir:
És linda como possa ser
O mosaico
Que nos resume.

(...)

Do AMOR E SEUS REAIS SIGNIFICADOS

Sabe, Thais,
Se é de amor que falo,
E do teu amor que não consigo entender!
E te juro,
Ninguém consegue

Pois bem sei que o que você persegue
É uma certa sensação
De amor vindo pela contra-mão,
Um amor tão excitante,
Que faz com que se levante
Dúvidas sobre
Se há sanidade, ou não.

Bendigo que sou louca
Insana, perdida
Não há como negar.
Mas, acaso não foste tu
Que creditasse toda a minha ânsia
Volúpia e incensatez?
De ti, lembro-me bem,
Vieram as palavras de amor,
Cálices sagrados, noites infindas
Lembro-me bem dos beijos sóbrios
E das verdades lúcidas
Pra não dizer das fumaças e dos dedais.
Vi ou não?
Ou então...
Não há, não hei, de entender nunca.
Não vês? Estavas tão louco quanto eu.


Quer melhor palavra para combinar com dor?...

Amor de verdade dói,
Machuca de tão gostoso que é.
Que seja um homem amando uma mulher,
Amor de pai e filho,
Amor viajante, andarilho...
Se é de amor que se quer falar,
É de amor que nunca vamos entender.

(...)

Nosso amor é louco
Sem medo
Sem pressa

Nosso amor
é incêndio
da alma e do corpo

É sonho e pecado
É vício e veneno
Castigo... destino

Nossa loucura é amor
corajosa
preguiçosa
Incerta
E, de realidade a ilusão,
De champagne a chumbinho
Nossa loucura
nos pune
E nos desune.

SÓ MEUS

Olá! Parece que perdi as horas. Perdi o tempo. É você mesmo?! Ou algum dos seus falaciosos heterônimos? Desculpe, há mágoa, sim, e muita dúvida. Jamais poderei me reportar a ti sem pesar, sem pensar nas agruras e saudades de outrora. Eu é que te peço, porém: não me leve a mal, meus escritos já não são tão doces. Agora uso adoçante pra tudo, e chocolates e caramelos não me envaidecem mais.
Não nos vemos mais, é fato, e estamos diferentes. Quando se perdem horas, se vão com elas boas lembranças. Mas não me lamento, nem sinto pena. Talvez um dia acredite na sua sinceridade. A nova ou a velha? Verdade ou mentira? Amor... Ainda há amor em nós? Onde está, que não o vejo?
Desejo...

(...)

Meu bem
Quisera eu poder transpor o limiar
Das palavras
E ver, além de certezas, dúvidas
Amor, poderia ver
Viver horas, vidas
Em falas,
Dizerem sem fim
Tudo-nada, mundos de vazios
Metáforas
metonímias de um sentimento meramente
poético
Alimento de ego.
Coração,
Poderia eu, uma vez mais te chamar assim?
Ah, aqui, sim
Até a última linha
Pois, no final do verso
No seu dia,
Não haverá mais espaço para mim.