7 de novembro de 2013

RAZÃO EM COISA ALGUMA

Faz frio, mas é diferente. É uma falta grande e doída, mas cheia de certezas. Ou, quem sabe, há razão nelas. Ou uma busca.

Um dia pensei que o amor fosse absoluto e pleno, e tudo pusesse me dar, nos dar.

Ledo engano! Gostar é bom, é bonito, talvez seja poeta, vire música, serenata e mesa de bar, (ou quase sempre, pelo menos...), mas não é o suficiente.

Triste, não? Dá vontade de espernear, protestar, chorar alto, provar o não. Pura negação. Com o tempo e os dias vividos, trocados, doados, perdidos, muitas vezes traídos, sou obrigada a renunciar à esperança, à fé no amor.

Hora de aceitar: não vim, não estou posta para amares. Nem amores. Waste of time.

A razão é, sim, inegável! Não gasto, não gastarei mais força alguma para provar o contrário, e piorar tudo.

Basta olhar onde se está. São as horas, ou os cabelos desarrumados? É a falta de sono, ou o amor nunca passou por mim? Ou pousou, sim, até demais, mas era pouco, tão pouquinho, que levou consigo vento, esse nada, essa coisa qualquer de medo, de desesperança, de desamor?

Talvez nem seja tão ruim, tanta, tantos vivem assim, há tanto tempo! Milênios! O moderno tem isso de veloz, de coelho maluco.

Estou atrás, meu relógio é do contra. Vejo consultórios lotados, filas, rinite, pancreatite, prisão de ventre. Estão todos doentes... tsc, tsc... Tudo porque não se aceita o que se foi, o diferente e impossível, o óbvio desamor. E daí?

Quem haverá de admitir que não se pode ter o mergulho, o sonho do amor perfeito, o happy end? Ou eu nego o tempo, ou nego o amor.

Um ou dois?

Zerinho ou um?

Par ou ímpar?

Não consigo escolher. Não importa.

Ninguém ganha, ninguém perde. São apenas perdas de vista.

ARMADILHAS

Eu fico passeando pela cozinha, indo da sala até o quarto. Não sem notar alguma coisa sua. Eu estou sempre faltando de ti.

Abro a geladeira. Tem aqui um siri congelado, vou escolher minha melhor cebola, algum tomatezinho bem cortado, pimentões. E alho, porque eu adoro quando está fritando, cheirando bom. Qualquer dia desses penso que poderia preparar para nós, eu sei, você vai ficar com preguiça de ir buscar a bebida, mas eu faço bico e tenho a maior gentileza do seu afeto, não sem um afago entre uma birra e outra.

Mainha me trouxe aqui um sofá velho, aquele, lá de casa. Está todo acanhado entre a minha mesa, meus lápis e minha brisa de janela, junto com essa lua de unha que, de quando em vez, me deixa saudosa e nostálgica. E virá, em domicílio, um senhor que vai arrumá-lo pra mim, deixar tudo novo em folha. E eu juro que até ouço o seu esparramar e a sua euforia quando dos nossos filmes, da minha novela juntos, dos seriados, e dos velhos novos beijos cheios de zoada e risos.

Na minha estante cheia de livros, há, nos derrames de cima, alguns dos quais foi você que deu, e eu não os consigo ler sem sentir uma pontinha de raiva e de remorso. Sorrio e me orgulho das lembranças do seu carinho, pois que fui eu que os escolhi, mas foi todo o seu desejo de me agradar, mimar a mim.

Eu enjoei de chocolate com leite há tempos, e não sou muito chegada a pão, nem presunto, mas tem tudo aqui, até as rosquinhas, que ofereço às visitas, desejando que elas acabem logo então, porque são suas, e ficarão velhas, para ninguém.

Esse ventilador também me faz espirrar, aí eu viro ele de lado um pouco, do jeito que você gosta, e me espalho na cama, abraço os meus trezentos travesseiros, mas eles não suam, como podem me esquentar? Vou dormir de ponta-cabeça hoje, mesmo com a claridade dessa janela cretina na minha cara, só pra dormir, por ora, contigo. Cadê?

Tem um saco com uma coisa só sua, até dá em mim, mas aí também já é demais ficar te vestindo, só pra te sentir de novo. Não há saúde nisso, então, here we go!

Eu não agradeço nada, eu sinto raiva, mas agora é menor. Eu sei, caberia mais um instante de despedida, de só mais uma vez, só por esta tarde, e eu sei que daqui a pouco você chega do trabalho, tem merluza com alcaparras, purê de batatas e arroz no fogo. Semana passada fiz aquele estrogonofe de novo, ficou o ouro, e eu me lembrei que não comprei batata palha, nem queijo ralado, e tem aqui essa porcaria de catchup que eu odeio, mas você gosta, vai ficar ruim sem uso. O refogadinho de frango e milho verde com repolho ficou bom também, você ia se esbaldar! Minha comida ainda é onde mais sinto a sua presença. Gosto muito de lembrar das nossas farras, mas a minha fome nem é mais a mesma, nem os meus chás noturnos.

Essa escova de dente e essa toalha ficam me olhando toda vez, e isso não é justo, porque elas me perguntam coisas sobre as quais eu não tenho resposta. Vou dizê-las: quem sabe um dia? Mas não, não hoje.

Olho no varal pra ver se guardei tudo seu, mas isso foi ontem. Quem vai me tirar esses pregadores, e esse cheiro de cuidado e amor? Deus, talvez. Ou ninguém.

E eu fico aqui me perguntando: será que esses mundos estão só aqui, o não dói ainda só em mim, esse não dormir é só e todo meu, ou foi tudo uma grande mentira? Não valeu, então.

Que saudade da porra.

Você é a minha pior ressaca.



Gilda.