21 de dezembro de 2012

Fragmento Indignado



 Eu quero meus fragmentos lidos, relidos, ditos e não ditos em folhas de jornal de domingo. Samba a dois, ponto sem nó.
Há muito de impublicável. Pena, muita gente ia gostar do indizível. Outros, não. Ah, algumas denúncias expostas incomodam mais que a ideia de morte, que a resignação de ser deixado, de perder o outro. Dor de cotovelo é um clássico, e não sou eu que vou enfiar o dedo na ferida alheia. E haja convenção social, bons comportamentos, bons textos. Polidez, segredos do contido. Não pode palavrão? Pornô? Ah, uma menina tão linda como você, não fica bem...
Que venha a idoneidade hipócrita e cínica. Não é pra ser? Que, todos os dias, meu bom dia seja uma máscara social. Com o tempo, bom tempo, aprendemos a ser tão bons nisso, que cola, sem superbonder nem nada, à nossa cara.
Me empresta a sua, por favor? A minha tá meio artificial. Não sei, talvez falte um pouco de pó compacto. Ah, joga um pouco de blush, compra um sorriso na esquina! Custa um pouco mais que um tablet última geração, notebook Windows 8, Nikkon semiprofissional. Iphone 1,2,3,4,5. E, acredite, causa uma impressão maior, muito melhor.
Porque vale o que se mostra, se ostenta, e não o que se sente. Isso é velho, aprendi por aí. Mas isso é muito feio, comunistas comem criancinhas!
É tudo tão atual, tudo tão nocivo... as pessoas não enxergam?! Como isso é possível?! O dinheiro está aí, está tudo aí, um pouco mais de trabalho e cansaço, por favor! Meu patrão precisa sobreviver, coitado. Meu alunos não podem pagar, muito cara a sua hora-aula, eu preciso trabalhar é de graça! Professor não come, né? E doutoranda não compra livros, não faz pesquisa, não publica em congresso... Bolsa?! Só a da xepa da feira...
E a gente vive de migalhas, de sonhos inauditos. Eu reprimo os meus, todos, porque praia todo dia é coisa de burguês, hippie ou vagabundo. Chocolate, mocotó, xinxim, dobradinha todo dia? Engorda! Cerveja? Dormir até tarde? Que preguiçosa! Cachaceira! Miojo? Uma bomba de sódio! Exercícios! Corra, entre na esteira, aperta o jeans Coca-cola, é preciso caber nas coisas. Olha que masturbação adoece! Os espaços são imensos e inundados de hipocrisias lamentáveis, e eu ando muito puta com tudo isso. Mas vou indo, a gente sempre aguenta mais um pouco! O mito de “só vou botar a cabecinha” é tão escroto, mas é tão muito certo!
E tudo tem tanto a ver com grana... até amor. Vou ali, comprar o meu, novo, no shopping. Vou aproveitar as promoções de natal, tem tantos, tão em conta... Espero que possa acrescentar garantia adicional, um certo feminismo de liberdade, umas tolerâncias alcoólicas nos fins de semana. Ah, deve ser meio cego, porque os meus quilinhos sabotadores de ditadura da beleza não querem se sentir constrangidos com um boy magia controlador e exigente do culto ao físico. Seria bom que curtisse leituras, mas se ouvir comigo minhas músicas, será quase perfeito. Ou, se ficar calado, melhor ainda. Já acabou?! Poxa, era um modelo tão bom!.. Ah, então me vê esse de todo dia, cara de todos mesmo. Sei que não vai durar muito, não sou dada a cárceres, mas, vamos lá, dançar a dança da felicidade! Da hipocrisia...
Ando meio com fome de liberdade. Será que engorda? Será que é tão feio assim?
E vamos à impublicação, a não publicização dos sentimentos nossos e alheios. E os ditos e não ditos, e os lidos e relidos, faço o quê com eles? Ah, vai enchendo a caixa, as pastas, os lugares cheios de teias de aranha! Quando morrer, vira santo, vira mártir, vira poeta do não entendido, do incompreendido pelo seu tempo. Aí, todo mundo vai poder te ler.
E a mim também, finalmente.
Foda.

Gilda Valente (início: 23/07/2010 – continuação: 19/12/2012)

8 de novembro de 2012

TARDE, JÁ É TARDE


Eu queria sentir o eterno
Não abandonar o sentimento
Fazer das escolhas
O não estar

Segundos, mecanismos de defesa
Ativar, para não perecer
Histórias de pessoas diferentes
Como, se é a mesma pessoa?

Uma história contada por quatro
Por muitos
Arranhos
Controvérsias
Contornos de um ser
Que saberia o porquê de um ligar

Um dizer
Um fazer
Não me digas, não me contes
Segredos pra quê?
Verbo imperfeito
Defeitos de um tempo
Futuro do presente
Choro
emocional
Quando perde o Amor, é o quê?
Viúva social
oficial

Eu, mulher feita, caí
Discursos pseudomaduros
Um caucho no chão

Engoli a seco aquele amor
E ouvi aquela confidência
Doeu
Mas, e amiga que sou?
Que eu era?

Então eram dois
Ou mais
O outro é um morto

Juntos, lá em Alcobaça
Vivendo e construindo lares
Praias de amores
Não sei
Caminhos, ruas, escolhas
Embaraçoso
Com ou sem tigresa
Ou mainha, neguinha
É conversa contínua
Coisa de outro tempo
Coisa de outro dia
De antárctica no balcão
Início dos fragmentos
No meio da noite,
No fim do dia.

Gilda Valente, Maria Roussoleen.
08.11.2012

31 de outubro de 2012

ONDE

Vontade de gente

 inteligente
Saudade de ver o cheiro
Inveja de dar desgosto
Medo sem cor.

Música rimada
Enjoada
batida
Saudade de todo dia.

Cadê, que não morre?
Pra onde, se se é só fingir?
Nó.

Sair, dar, morrer, viver no limbo
Não é o que um dia
Salto de poesia
Comida de madrugada
Idade de macarrão e noite
Sonho de vinho bom
Lua de unha
Cabelos de cortina
Loucuras de insensatez

Foi.

Não é.
Nada disso jamais será.
Aqui.

4 de janeiro de 2012

Carta a um penseiro

Nada de conseguir dormir...

Deitada, sinto dor no peito; sentada, respiro melhor, mas aí, me dá fome. E não durmo. Ramon diz que é por causa dos reggaes do Candeeiro. Nada! Tô é ficando velha, isso sim... peguei uma gripe misturada com rinite que não passa! Imagina se eu tomasse os xaropinhos de Flávia, Lule e Buldog?! Aliás, como é que eles aguentam?! Aff!!!

Fui à cozinha, e catei umas folhas de agrião que ninguém come, a não ser eu. Juntei com um tomate e as sobras de um patê que fiz pro réveillon. É, agora eu sou dada a culinárias... ou quase. Coloquei milho verde, azeite doce, porque ainda tenho manias lusitanas, e espremi um limão. Ficou meio azedo, resolvi acrescentar um pão de leite. Ficou bom, ficou razoável. Você diria que não come mato, e lembraríamos daquela mistureba doida quase amanhecida, eu você e Lule. De que reggae, não se sabe. Mas foi a melhor comida que poderíamos ter feito. Sucesso! Lule tem a manha, não é verdade? Dias loucos e incríveis.

Saudades. De você, dela. Do tempo em que tomar umas dava poesia pro Penseiros. Começo bom, bom começo.

Essas viagens, e esse povo indo pra longe. Está na moda, está na época dos amigos irem pra Europa, pra Austrália, pra Londres, “trepar” em irlandês. Como é que pode?! E você, que resolveu entrar na moda, entrar pras estatísticas, miséria?!

Rapaz... você parou a cidade! Não, assuma: tinha se visto assim, tão popular, tão bem quisto? Ah, um Viana, claro! Ainda assim, ir embora desse jeito foi sacanagem. Tô pirada, ainda não te perdoei. Mas um dia terei que fazê-lo, porque você é assim. Só faz o que quer. Sacana! Por isso que Flávia vivia te mandando tomar no cu. Te mandei algumas vezes também, depois disso. Mas depois, obedeci. Fazer o quê?

Ah, mas tenho boas novas! O Candeeiro Urbano, que estava inativo, ativou, com força! Seu vereador, que agora é meu também, nos reuniu e nos convidou a cuidar do Novembro Negro. No início, pensamos que seríamos apenas uma ajuda. Po-há-nen-hu-ma!!! Fizemos tudo! E você, com certeza, está orgulhoso... tentamos fazer tudo do seu jeito: Adri, Tainana, Crislane e Darlene tiraram as fotos que melindraram até o prefeito, veja só! “Negro presente em tudo que vejo”. Bibo arrebentou no design! Juninho, Beto, Carla e Jr. Negão me saíram excelentes palestrantes! Todo mundo queria ver um pouquinho dessa galera que faz aula diferente. Jérssica fez um monólogo incrível, com aquele texto sobre o filho de Deus ser loiro, de mainha. E eu me vi, de repente, a ter que estudar tudo, de vento em popa, sobre os pretinhos: virei militante! Até no trio tive que subir! Organizamos as palestras nas escolas, e emocionamos muita gente, falando de igualdade e luta racial. Comprei briga com um monte de amiga alienada, que dissemina o mito da democracia racial, seja por ignorância, seja por descaso... e ando vendo racismo em tudo, quem diria! Dequiane me ajudou! deu uma boa baixa pelo facebook. Ela e Waneska! Miseráveis! Isso mesmo! Quem Cláudia Leite pensa que é?! Oxe!

Trouxemos pra Cidade do Saber uma peça incrível, e acabamos criando até um grito de guerra: “Zumbi!” seguido de palmas. E risos. Bestas que somos, buscando produzir alguma coisa, direcionar a nossa saudade pra algo bom. Chega de ficar bebendo você em Bin o tempo todo... agora a gente se reúne pra pensar em cidadania, pré-vestibular, palestras, cursos de formação. E muito mais! Tem é gente envolvida, e mais e mais querendo se envolver, beber um pouco dessa nossa fonte de loucura inesgotável chamada vontade de mudança. E, acredite! O nosso curso, sobre comunismo, saiu, brother! Carla convidou um professor marxista do IFBA pra nos dar uma aula. Ele é bom, fantástico. Mas, sabe o que eu acho? Ah, ele só arrumou mais bonitinho o que você sempre disse. Tudo o que ele ia dizendo eu pensava: “Vinícius me disse isso! Ele me disse isso!” Você é mesmo muito foda.

Acredita que até Waneska nos deu curso de formação sobre os pretinhos? Rapaz, ela é incrível! Linda, inteligente... muito fofa. Vou votar nela! E você nem sabe: passamos juntas na seleção de doutorado! Fizemos até um reggae, batizado por Beto de “Doutorado Fest”. Veja, se tem cabimento... tudo é motivo de festa pra esse Candeeiro, que mais é uma família de amigos, meio perdidos, meio saudosos, tentando encontrar o sentido das coisas. Comendo água, é claro. Abrindo e fechando os trabalhos!

Temos muitos planos pra esse novo ano, e isso inclui a nossa “Aula Show”. Mas não se preocupe, o Penseiros é outra coisa. “E ainda existe?” você me perguntou uma vez. “Ah, meu amigo... nunca deixará de existir! É o nosso projeto de vida”, te respondi. E estamos aqui pra incomodar, não pra facilitar, como diz Lule. Eu sou a onda, bicho! Nunca paro (Só quando a rinite ataca...).

Todos sentem muitas saudades! E todos dizem “olá”, e me pedem pra dar o recado pra você. "Ah, até parece que esse sacana vai me ouvir..." eu, que me achava uma amiga especial, vejo todo dia surgir uma nova filha, um novo brother, uma história nova, desconhecida. E fico enciumada, você sabe que sou dessas. Depois relevo, porque o amor tá aí pra isso! Que se há de fazer, se você é todo dado?! E ainda dizia que queria “desconhecer”. Francamente! Um puto, isso sim...

Tenho muitas outras novidades! Queria até falar de coisas íntimas. Mas amanhã tenho aula, embora seja janeiro e eu seja quase uma doutora (o atlas vai sair, brother!). É preciso ganhar algum, e eu não posso mais ser a mesma notívaga de antes. Tenho até gostado mais, sabia? O mestrado me deixou mais confiante! Só não consigo ser atriz. Continuo sendo muito séria, embora tenha conseguido até comer água com meus alunos. De leve... “Pense que eu cheguei de leve, machuquei você de leve...”.

Te escrevo na próxima lua cheia, ou na unha de lua. Ficaria surpreso de ver quanta gente lembra de ti nesses dias. E haja poesia. Ai, ai, Vinícius...

Amo você.

Nada de mil perdões, seu sacana. Fica bem.

05.01.2012.

03:54. Verão. Abertura diferente. Josi, viajando adoidado! Zé Beautiful, menos chorosa, mais tolerante (ou nem tanto). Da Musa, nunca mais tive notícias. Juninho, vagabundo, agora namora com a menina do rabo imenso! E tudo continua do mesmo jeito. Ou quase...